Sonho que estou preso em uma ilha que parece ficar em um trecho calmo de mar, como uma vasta baía. Ou talvez não seja realmente o mar, mas sim um grande lago - tão imenso que não consigo ver as margens, do ponto de vista da ilha.
De fato, de alguma forma obscura, “sinto” que a água é doce, e não salgada… reforçando a interpretação de que é um lago enorme. Talvez seja a ausência de um cheiro de maresia no ar.
De qualquer forma, essa pequena ilha (acho que com apenas um ou dois quilômetros quadrados, tanto quanto meu senso de tamanho pode dizer) é quase toda coberta por uma floresta horrível, composta de árvores magrelas e sem folhas - parecendo mortas.
Talvez seja uma floresta temperada e o inverno esteja se aproximando, e as folhas tenham caído em resposta. De fato, o chão está todo coberto de folhas de tons avermelhados - e o tempo parece desagradavelmente frio e úmido, com um céu cinzento encoberto visível além dos galhos esqueléticos das copas das árvores.
Essa floresta se estende por toda a área interna da ilha, dominada por colinas pequenas e suaves. Já as margens são o único lugar descampado e plano - praias estreitas e pedregosas de areia cinza-escura, onde o som líquido das marolas do lago alcançando a terra preenche o ar, dia e noite.
Na margem norte (ou ao menos meu senso de direção de alguma forma diz que é o “norte”), há uma pequena enseada, e perto dela, já dentro da mata (mas em um terreno ainda mais ou menos plano) fica a única construção de pé sobre a ilha. Trata-se de algo lembrando aquelas escolas públicas brasileiras de cinquenta, sessenta anos atrás: um prédio de tijolinhos visíveis, comprido e com dois andares, com extensas varandas de uma extremidade a outra que servem de corredores - e um telhado mais extendido justamente para proteger essas passagens da chuva.
Essa construção parece abandonada e decaída, porém. Pintura descascando em portas e paredes, poeira e folhas acumuladas por todo o lado, esse tipo de coisa.
No entanto, em seu interior, existe energia elétrica ligada, de alguma forma. Os cômodos mais escuros estão muito mal iluminados por ineficientes lâmpadas incandescentes daquelas mais fracas, de quarenta Watts - parecendo ser relíquias funcionais que restaram de tempos passados.
Aliás, vasculhando o interior, noto que o prédio parece ser maior por dentro do que sua parte de fora sugeria. De fato, começo a sentir que (a despeito das semelhanças superficiais externas) aquela construção nunca foi uma escola.
Pode ter sido um pequeno hospital. Ou talvez algo mais sinistro - como um hospício, ou então um presídio.
De qualquer forma, não estou sozinho por lá. A construção é “habitada” por um bom número (cem? duzentas?) de pessoas dos mais variados tipos: diferentes idades, raças, etc.
No entanto, todas elas compartilham ao menos uma coisa em comum - ninguém se lembra de como foi parar ali.
O que, na verdade, é a situação normal em um sonho. Porém, essas pessoas tinham consciência da lacuna de memória durante o sonho, o que era algo que nunca vi antes em minhas experiências oníricas.
(Dito isso, se formos pensar bem, tecnicamente também não temos a menor lembrança de como chegamos até aqui - ao Mundo Desperto. Talvez, no fim das contas, seja tudo “só” um grande sonho…)
Mas, enfim… todas essas pessoas tendiam a ficar concentradas dentro da construção. Afinal, parecia não existir muito o que ver no resto da ilha.
Para variar, porém, eu fui uma exceção e decidi explorar os arredores. Foi então que comecei a notar (mais) coisas estranhas.
A cada dez, vinte metros andando por sobre as colinas, e por entre as árvores, eu sempre achava bizarras… formações que eu não sabia dizer se eram pedras escuras e cascorentas ou grandes tocos arbóreos envelhecidos. Talvez fossem alguma coisa no meio - como madeira petrificada?
Qualquer que fosse o material, enfim, essas “pedras” (vou chamá-las assim, por conveniência) se encaixavam em ainda mais alguns padrões: todas tinham mais de um metro de altura, mas não muito mais que isso; além disso, embora a grande maioria fosse solitária, isolada das outras, ocasionalmente eu encontrava grupos de duas, até três, bem próximas.
Mas de longe a característica mais marcante das “pedras” era a forma geral muito peculiar - que, de alguma maneira obscura e difícil de definir, lembrava… pessoas.


